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06 agosto, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #9

Entretanto na Rússia.

Moscovo é uma cidade linda, podia ser realmente uma beleza a ser bastante apreciada para quem não estivesse na minha situação, pensei, sinto tanta a falta dela, se ela aqui estivesse a minha vida não poderia estar mais completa: uma família e a pessoa que amo todos juntos, seria realmente um conto de fadas tornado realidade.
Desde a sua saída de Portugal tinha conhecido melhor a mãe e o pai adoptivos, eram pessoas simples porém muito bem formadas e tinham feito de tudo para o deixar o mais à vontade possível, mas nada o poderia por mais à vontade do que ter a sua Yue com ele, mesmo com ele a habituar-se às mil maravilhas aos pais e à nova cidade o seu coração sentia um vazio enorme, e este vazio só podia ser preenchido por ela e mais ninguém.
As noites custavam a passar e já não se lembrava qual teria sido a última em que tinha dormido alguma coisa, o bilhete que a Mary lhe dera vindo da Yue descansava debaixo da sua almofada e todas as noites olhava para ele, como gostava de ver novamente o seu sorriso, é tudo tão mais escuro sem ela, era este o pensamento de todas as noites e desejava a tudo em que acreditava que a pudesse voltar a ver.
Quando a Mary lhe deu o bilhete ele não acreditou que ela não estivesse lá, ele sabia que ela lá estava podia senti-lo na sua pele, mas não a viu em qualquer lugar, não tinha querido acreditar que ela já não se preocupasse com ele…
Os pais levavam-no a todo o lado e preparavam-lhe as comidas mais típicas da Rússia, embora ele apreciasse isso estava sempre com o seu ar infeliz isto até ao dia em que, ele supôs , a mãe já não o aguentasse ver assim.
- Querido, desculpa a pergunta mas não gostas de nós? – disse a sua nova mãe timidamente.
- Gosto, claro que gosto, você e o pai são muito queridos para mim.
- Por favor trata-nos por tu… Então porque estás sempre tão infeliz? Não te consegues habituar à cidade?
- Não é isso, Moscovo é uma cidade realmente lindíssima.
- Hum – disse o pai de repente – já percebi do que se trata, acho que estamos perante um caso de amor – e como sempre fazia quando fingia pensar muito, fez uma óptima cara em imitação de detective privado.
- Quer dizer eu… - disse corando muito – é uma rapariga da minha turma, eu sei que vão dizer que é apenas uma paixão que vai passar porque sou novo e vou encontrar outra rapariga, mas não, ela é realmente especial, até agora nunca conheci alguém como ela e acho que enquanto viver nunca vou encontrar. – Corei ainda mais, mas como faço sempre que penso nela esbocei um sorriso enorme.
- Enganas-te só numa coisa, eu não vou dizer que é apenas uma paixão, eu conheci a tua mãe com a tua idade e olha para nós, casados e felizes à quase 25 anos. – E vi-o olhar ternamente para a minha mãe, era amor, um amor verdadeiro que já não se vê todos os dias – E pela maneira como falas dessa rapariga já vi que ela pode ser a tal, quem não seja cego vê filho, não consegues disfarçar.
- Mas ela está em Portugal e eu aqui…
- Bem porque não lhe escreves uma carta? Eu sei que a tua mãe adorava quando eu o fazia… Não à nada que as faça derreter mais – piscou-me o olho.
- Ora essa, o que é que tu estás a querer insinuar? – replicou a mãe no seu ar divertido e muito jovial.
- O pai tem razão, vou fazê-lo, vou escrever-lhe uma carta, pelo menos digo-lhe tudo o que sinto por ela. Com licença e obrigado, muito obrigado.
- Vai-te a ela campeão se precisares de ajuda diz – O pai deitou-me a língua de fora.
Fui quase a correr para o quarto, apressei-me a pegar em papel e caneta e comecei a escrever:
Querida Yue, sei que sabes que não tenho jeito para escrever mas tive de te escrever esta carta pois já não aguento não te dizer tudo o que sinto, és única, nunca vou encontrar outra como tu, sinto a tua falta todos os dias e todos os segundo, sabes foste a primeira e talvez a única que realmente me conheceu e me conhece e nunca me olhou com piedade, sempre me viste a mim pelo o que sou e eu gosto de ti por isso, quero conhecer-te, por inteiro, todas as tristezas e alegrias, tudo, quero ser feliz como só sei ser a teu lado, eu sei que isto da distância está a matar-me mas sinto que não posso viver sem ti…
Parou… Não podia viver sem ela mas e se ela estivesse finalmente a conseguir começar a viver sem ele? Iria mete-la novamente em baixo? Não, não lhe parecia justo que o fizesse… Pegou no papel da carta, fez uma bola e meteu-o no lixo.
Não podia, não podia fazer-lhe isso.
Inventado
Continua

29 maio, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #8

Sentia-me como que adormecida, como se já pudesse sentir, creio que a palavra mais certa seria apática. As vozes que passavam naqueles corredores cheios de pessoas com pressa de apanhar os seus aviões pareciam muito distantes.
- Joana, amiga, são quase horas de almoço está a ficar tarde devíamos ir andando. – Ouvi a Mary dizzer-me ao ouvido muito pausadamente.
- Ah, sim, vamos então. – Disse.
Levantamo-nos sem trocar mais nenhuma palavra, saímos do aeroporto a Mary, que tinha trazido o carro, guiou até à baixa para irmos comer algo.
- Mary, eu realmente não tenho qualquer apetite.
- Oh eu não quero saber, conheço-te bem o suficiente para saber que ainda não comes-te nada e esse é o teu preferido por toca a comer! – Ela sabia ser mais insistente que a minha mãe quando queria.
Fingi que comia enquanto a Mary devorava o seu almoço, nada a abalava e por um momento desejei ser tal e qual a minha melhor amiga.
- Bem agora quero mostrar-te um sítio lindo onde vou quando estou triste. – Disse a Mary com um dos seus sorrisos.
- Tu ficas triste? – Sorri-lhe, a piada saiu-me naturalmente e senti-me um pouco melhor, um dos sintomas de ter uma amiga como a Mary é saber que com ela nos podemos sempre sentir um pouco mais leves.
- Engraçadinha sim senhor, põe-te masé no carro antes que eu decida que vais do lado de fora com uma corda atada ao pescoço.
Ela conduziu e conduziu até que eu perdi o rasto de onde estaria, mas suponha que bem longe e isso era só o que eu precisava.
Chegámos a um belíssimo prado onde se podia ver todos os girassóis a brilhar e as margaridas a chegar ao seu estado mais bonito, havia também uns bancos feitos de um modo tosco. Sem dúvida um dos sítios mais belos que alguma vez vira.
- Onde é que me trouxeste? – Perguntei.
- O sitio não interessa, sei que aqui podes sempre por as ideias em ordem. – Respondeu a Mary muito simplesmente.
- É maravilhoso.
- Porque é que achas que te trouxe? Anda vamos sentar-nos. – Apontou para um dos bancos.
Seguia e sentei-me, ficámos ali talvez horas mas o tempo não importava aquilo era um sitio onde o tempo ou as pessoas não pareciam sequer existir. Até que me ouvi a mim própria perguntar em voz alta uma das muitas questões que me passavam pela cabeça.
- Achas que ele a esta horas já está na Rússia? – Olhei-a nos olhos.
- Hum, não sei, não faço a mínima ideia do tempo que levará daqui lá. – Respondeu-me ela.
- Pois tens razão, mas quem se importa. – Desfitei-a e encostei-me ao banco a olhar para o céu.
- Tu, tu importas-te com ele e eu contigo por isso acho que todos nos importamos.
- Sabes, de certa maneira, ele é a pessoa mais importante da minha vida. Estranho, não é? Conheço-o à tão pouco tempo e já gosto tanto dele. Nem sequer lhe contei do meu pai quando ele me contou de tudo na sua vida e agora deixo-o partir, assim sem saber nada de nada. – Comecei a divagar mais para comigo do que para com ela.
- Julgo que o tempo a que o conheces não importa, as coisas boas levam o seu tempo mas as coisas realmente maravilhosas acontecem num piscar de olhos. E suponho que não lhe contas-te porque não querias que ele soubesse de mais tristezas para além das suas. E se queres a minha humilde opinião formada na maneira de como te conheço não me parece que sejas rapariga para o deixar escapar assim, sei que este rapaz pode ser o “tal” para ti, não me perguntes porque mas é o que sinto. Acho que vocês são feitos um para o outro, eu vi-o no aeroporto, de certeza melhor que tu porque estava perto dele e ele estava destroçado como nunca tinha visto ninguém estar e apesar de eu não o conhecer tenho a certeza que és a “tal” para ele, mas que ele provavelmente não fará nada porque acha que mereces melhor e não te quer levar para aquele tipo de “batalha”. Mas conheço-te, és a melhor amiga que alguém pode ter mas também és teimosa como uma mula e por muito que tu queiras desistir, oh, acredita Joana eu não vou deixar nem que me tenha de te por num pacote num avião para a Rússia! – Ela olhava-me nos olhos com uma intensidade tal como eu nunca tinha visto.
- Desde quando ficas-te tão esperta? – Sorri-lhe, tinha a sorte de alguém tão especial como a Mary ao meu lado.
- Deves pensar que durante este tempo não me ensinas-te nada. – Deitou-me a língua de fora e sorriu-me.
Fomos para o carro, a Mary abriu a capota e fomos a rir e a apreciar o sol abrasador que se tinha posto de volta ao lugar onde nada tinha mudado.

08 maio, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #7

O quê? Mas o Mundo ficou louco? Eles não podem fazer isso! Era tudo o que conseguia pensar, não queria acreditar no que ele me tinha acabado de dizer e podia sentir as lágrimas a aflorarem-me nos olhos, mas não, eu não podia chorar, ora bolas eu nem triste podia ficar, pelo menos não na frente dele, finalmente ele ia ganhar uma família não podia tirar-lhe isso mostrando o quão infeliz estava. Por isso, e como faço em todas as situações em que tenho de me aguentar e não pensar, disse a primeira coisa que me veio à cabeça e, é claro, que também era a mais parva.
- Ora bolas ouvi dizer que o tempo lá é tramado – Ouvi-me a mim própria a dizer.
- Yue…- Ele tinha ar de quem tinha percebido e que me estava prestes a abraçar, mas eu não podia segurar mais as lágrimas, se ele me agarra-se só ia parar quando ele me disse-se que era tudo um pesadelo horrível.
- Desculpa Jude, tenho de ir à casa de banho antes da aula e já tocou. – Virei costas e fiz todos os possíveis para não me virar e não o abraçar e nunca o largar, por isso, comecei quase a correr para a casa de banho.
Quando cheguei lá meti-me dentro de um dos cubículos e deixei tudo sair, lavei a cara esperei um pouco para que os meus olhos deixassem de estar tão vermelhos e encaminhei-me para a aula.
Bati à porta e sem por uma resposta entrei.
- Desculpe o atraso stôra. – Disse calmamente, para que a voz não me falhasse.
- À menina Joana, vejo que finalmente nos dá a honra da sua companhia. – Disse a professora Marília na sua vozinha aguda e irritante.
Limitei-me a sentar-me junto da Mary, não estava com disposição para argumentar com aquela professora horrorosa.
- Bem, o que é que se passou? Chegas-te mesmo atrasada, não me digas que ele “acabou” contigo? Amiga se foi isso ele nunca te mereceu – Disse-me rapidamente a Mary muito baixinho, mas antes que lhe pudesse responder a professora continuou a falar.
- Tal como eu ia dizendo antes de a Joana nos interromper, o Jude vai deixar-nos, partirá amanhã para Moscovo, que como deveriam saber é a capital da Rússia, por isso amanhã quem quiser pode ir connosco, professores, até ao aeroporto para dizer adeus.
- Ora bolas. – Ouvi a Mary dizer, depois disso, desliguei.
Cheguei a casa irreconhecível, sentia-me 30 anos mais velha e sem forças, não jantei e fui directamente para a cama. Amanhã ele vai partir para sempre, foi este o meu último pensamento antes de adormecer.
Levantei-me cedo e disse à minha mãe que ia ao aeroporto despedir-me de um amigo que comia pelo o caminho, menti não tinha forças para isso.
Ao chegar vi lá toda a gente da nossa turma e por isso meti-me num canto onde eles não me pudessem ver, mas onde eu os visse perfeitamente, não fazia intenções de me aproximar mandei uma mensagem à Mary para que viesse ter comigo mas que não desse nas vistas. Via aproximar-se.
- Não sabia quando disse aquilo tudo ontem… Como é que te sentes? Que raio de pergunta, mas porque que não vais ter com o resto da turma o Jude está a chegar…
- Eu não vou lá despedir-me dele e não quero que ele saiba que aqui estou. – Disse mais determinada.
- Mas…
- Mas nada Mary, por favor faz isso por mim, vai ter com eles mas não digas nada, entrega-lhe apenas este papel e diz-lhe que não pude vir – Dei-lhe o pequeno papel que tinha escrito à pressa. – Vai.
- Se queres mesmo – Vi toda a tristeza no seu olhar mas sabia que o que estava a fazer era pelo melhor.
O Jude chegou, bem como os seus novos pais vi toda a gente a cumprimentá-lo a desejar-lhe um bom futuro, ora bolas até vi raparigas a chorar, mas eu sabia que não choravam do fundo do coração, oh por favor nem o conheciam a sério. Mas ainda o vi ele como um louco à minha procura e vi a Mary a dizer-lhe exactamente tudo o que eu lhe tinha dito e a entregar-lhe o meu papel. Vi-o a abrir e quase poderia estar no pensamento dele quando ele leu o que dizia:
Mesmo na Rússia não vais estar sozinho. És um num milhão.
Chegou a altura de fazer o check-in e todos se vieram embora, menos a Mary que veio directa ao lugar onde eu estava, não disse nada e sentou-se. Ficámos a observar enquanto esperavam pelo sinal para entrar para o avião e eu podia jurar que ele, enquanto as lágrimas lhe caiam dos olhos, continuava à minha procura. Vi-o a ir lentamente para dentro e quando isto aconteceu-me aproximei-me do vidro que dava para ver a partida dos aviões e vi o dele partir, encostei-me ao ombro da Mary e fiquei ali uma hora a chorar depois de ele já ter partido. Tinha-o deixado ir sem nunca lhe dizer o que sentia por ele.
Inventado.
Continua.

17 abril, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #6

Como é que ele poderia saber? Foi tudo o que conseguia pensar enquanto pegava no telemóvel para lhe responder:
- Está tudo bem, foi só um sonho.
Não interessava como mas ele sabia, como eram cinco da manhã virei-me e tentei, em vão, dormir. Quando vi que eram quase sete fingi-me dormir, a minha mãe entrou no meu quarto, como de costume, para me acordar:
- Joana está na hora anda lá.
Meti a minha voz sonolenta e respondi:
- Estou a ir.
Fiz toda a rotina como é habitual, ao sair dei um beijo à minha mãe e desejei-lhe um bom dia, pus os phones, ganhei coragem e dirigi-me para a escola para enfrentar um novo dia.
Aqueles pesadelos tinham de acabar ou caso contrário ia acabar na ala psiquiátrica.
Mal tinha acabado de chegar à escola quando ouço uma voz toda contente por trás de mim
- Bom día alegria! – Era a Mary com o seu habitual sorriso no rosto.
- Bom dia Mary – tentei parecer o mais casual possível, mas não, a Mary não se deixa enganar assim, ela conhece-me bem.
- Sonhas-te outra vez com a morte do teu pai – a voz dela mostrava um misto de compreensão e tristeza.
- Sim, mas é só um sonho certo? Não é como se algo que eu fizesse pudesse alterar isso! – Tentei soar despreocupada.
- Exacto, mas há uma coisa que podes mudar.
- Hã? – Parecia mais um grunhido que realmente uma pergunta.
- Se fosse a ti deixava de fazer barulhinhos como os animais e olhava ali para o bonzão e misterioso Jude que está sempre a olhar para ti, tens o meu consentimento sabias?
- Parvalhona! – e não consegui evitar rir-me, aquela miúda sabia mesmo o que dizer e a altura certa para isso.
Jude começou a aproximar-se de nós num passo lento como que a dar-nos tempo para terminar a conversa.
- Bem Joana vou ali ao bar e já sei que tens mais que fazer – fez-me um gesto muito sugestivo em direcção a Jude – disse Mary. Não, realmente subtileza não era o forte dela.
- A tua amiga é divertida minha Yue. – Disse Jude na sua voz doce.
- É, uma verdadeira relíquia – disse eu enchendo a minha voz de brincadeira e ironia.
- Yue estás mesmo bem? – Ele disse-me isto tão rápido que por momentos fiquei sem reacção.
- Sim, estou óptima, eu cheguei a responder-te.
- Eu sei, mas então esse sonho deve ter sido muito marcante, eu juro que senti como se algo me estivesse a tentar arrancar o coração mas quando me apercebi que não era comigo tive de te mandar uma mensagem.
- Obrigado Jude – não sabia que lhe responder, era como se ele estivesse a acertar em tudo.
- Tu não gostas de falar disto pois não? – Ele mostrava compreensão.
- Nem um bocadinho.
- Então quando quiseres e estiveres preparada podes sempre contar comigo.
- Eu sei muito obrigado Jude. – Não conseguia dizer mais nada.
Fomos para a aula, depois deste dia os restantes passavam normalmente até que na sexta-feira Jude vem falar comigo, a cara dele era séria e quase podia jurar que estava preocupado com algo.
- Yue precisamos de falar – Disse mal chegou ao pé de mim.
- É claro, mas o que se passa? – Estava a ficar aflita aquela cara não era natural nele.
- Ontem foram pais de acolhimento à minha instituição, tu sabes como é natural para escolherem alguém e levarem como família de acolhimento, bem, houve uns pais que me escolheram e que me querem com eles. – Disse isto muito depressa.
Fiquei em choque mas muito feliz por ele como é óbvio.
- Parabéns Jude! – Abracei-o muito rapidamente – Finalmente, vais ter uma verdadeira família, eu sei que vais ser tão feliz! Estava a ficar realmente ralada quando vieste tão sério, mas agora sei que é algo único! – Voltei a abraça-lo – estou tão feliz por ti Jude!
- Não estejas – disse ele, continuava sério.
- Porquê não gostaste deles? – Não percebia o porque de ele estar assim.
- Gostei, eles são muito simpáticos e já estão a tratar dos papeis para me levar, mas eu preferia não ir – parecia triste, mas eu não sabia bem porque.
- Jude não te preocupes de certeza que vai correr tudo bem e vais-te habituar à casa deles e eu vou estar sempre aqui contigo.
- Yue escuta-me – ele falava calmamente e vi que estava a fazer um esforço enorme para não chorar – Eles são da Rússia e vão levar-me!
Inventado, continua

06 abril, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #5

Como é possível alguém ser tão querido? Pensei enquanto corava com o que ele me tinha acabado de dizer, ele também estava a corar.
E tão depressa como começou, a chuva parou.
- Parece que a chuva interminável já se foi Yue – disse Jude numa voz envergonhada.
- Infelizmente – disse eu baixo o suficiente para ele não me ouvir.
Peguei no telemóvel para ver as horas.
- Oh meu deus são 19h30 a minha mãe vai matar-me!
- Já é tão tarde? E eu que devia estar de volta à instituição às 19! – pela primeira vez ele parecia estar tão surpreso como eu estava.
- Achas que elas te vão aplicar algum tipo de castigo por chegares tarde? – disse realmente preocupada, nunca tinha percebido como as instituições funcionavam.
Ele riu-se e eu fiquei a olhar para ele como se fosse parvinha, ora porque raio estava ele a rir-se?
- Desculpa Yue, não me pude conter, acho que andas a ver muitos filmes – senti-me corar ainda mais quando ele disse isto – elas não me vão aplicar nenhum tipo de castigo, eu tenho um “currículo” imaculado, o mais certo é receber apenas uma reprimenda.
- Eu não tenho culpa de não saber como é que a tua instituição funciona sabias? – estava a fazer um sério caso de beicinho.
- Ora, eu sei, e ainda bem que não sabes, mas eu ensino-te, um dia até te posso levar lá para conheceres toda a gente.
- Está bem, mas não hoje – mudei o meu tom de voz para brincalhão, peguei-lhe na mão e comecei a encaminhá-lo – Anda lá senhor eu porto-me sempre bem, vamos para casa.
Ele mesmo atrasado fez questão de me levar a maior parte do caminho, até que eu ganhei a nossa discussão e disse-lhe para dar meia volta para não piorar a situação dele e ir para a instituição.
Não me queria despedir dele mas tinha de ser – Vejo-te amanhã na escola.
- Estarei ansioso por te voltar a ver minha Yue – pegou-me na mão e beijo-a, virou costas e foi-se embora.
Não queria acreditar que isto tinha acabado de acontecer, como é que rapazes como aquele ainda existiam?
Entrei em casa e disse muito alto – Olá mãe! – olhei para a fotografia do meu pai que se encontrava no hall e mais baixo disse – Boa tarde paizinho.
- Onde é que tinhas metido Joana? Sabes o quão preocupada estava contigo? Porque é que não disseste nada? – ela parecia mais preocupada que chateada.
- Desculpa mãe, não dei pelo tempo passar e quando vi as horas não disse nada porque vim logo a correr para aqui – quer dizer, não é que viesse realmente a correr mas a primeira parte era verdade.
- Nunca mais me faças nenhuma dessas outra vez!
- Sim mãe. – parece que não havia castigo para mim, ora toma lá senhor bonzinho não és o único sortudo, pensei para comigo mesma e comecei a sorrir.
A noite passou-se como tantas outras, jantámos, conversámos sobre a escola e o trabalho eu fui para o computador acabar uns trabalhos e a minha mãe para o dela fazer os seus. Quando a hora de dormir chegou fiz o mesmo de sempre, lavei os dentes, pus o pijama, o telemóvel na mesa-de-cabeceira e fui dar um grande beijo à minha mãe e desejar-lhe boa noite. Adormecei quase imediatamente, estava cansada por isso não era uma grande surpresa, a surpresa só veio quando comecei a sonhar.
Reconhecia aquele lugar, estava em frente a uma loja, num bairro com uma fama não muito agradável, era o sitio onde antes morava, a confusão era geral, a loja em frente estava a ser assaltada e a policia ainda não tinha chegado. Eu sei o que vai acontecer a seguir e não quero sobre com isto quero acordar consegui pensar no meu próprio sonho, mas como de todas as outras vezes que sonhava sabia que não podia fazer nada, que ia viver tudo outra vez até ao fim. Vi os assaltantes a saírem da loja, peguei no telemóvel para ligar à policia e gritei para que as pessoas mais próximas tivessem cuidado. Vi o assaltante a pegar na arma e apontar directamente para mim e disparar e vi o meu pai a meter-se à minha frente, vi tudo muito claro e vi o meu pai a esvair-se em sangue devido à bala que tinha levado por mim, vi tudo, vi-o morrer outra vez…
Acordei sem ar e a chorar, como se me tivessem arrancado o coração e a alma. Outra vez não pensei por favor faz com que isto pare.
Olhei para o relógio, eram cinco da manhã e de repente o meu telemóvel tocou, era uma mensagem. Desbloquei-o e vi de quem era, era do Jude… O que teria acontecido para me mandar uma mensagem a estas horas? Com algum medo abri a mensagem, só dizia:
- Está tudo bem?
Inventado, continua

26 março, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #4

Ele meteu a cabeça dele junto do meu ombro, antes de o fazer vi que uma lágrima escorria da cara dele.
- Obrigado. – Disse o Jude, e a voz dele era tão sincera, tão pura como eu nunca tinha ouvido a de ninguém ser.
- Não tens de me agradecer.
- Por acaso até tenho – pegou-me nos ombros e olhou-me directamente nos olhos – porque sei que quando dizes isso, estás a dizê-lo do fundo do coração e não da boca para fora como tanta gente já me disse.
- Não gosto de fazer promessas em vão – disse-lhe com a maior sinceridade, não conseguia desfitá-lo os olhos dele eram literalmente o reflexo da alma dele, completamente extraordinários, tinha sensação de que nada poderia alguma vez fazer jus àquilo.
- Eu sei, sinto sempre essa energia em ti, é por isso que gosto tanto de ti, minha Yue.
Senti-me corar, ele era tão querido, um autêntico conto de fadas, mas eu sabia que não, sabia que por detrás de tudo aquilo estava um coração que já tinha sofrido muito, um nível de sofrimento que eu nunca poderia compreender. E como sabia isso, deixei os meus gesto falarem por mim e apertei-o num abraço sem fim, deixei-me descansar no ombro dele e ele retribui-o cada movimento.
De repente começou a chover.
- Ora bolas, só faltava esta – saiu-me da boca muito depressa, sem que tivesse tempo de me conter.
Ele riu-se, um som bonito e melodioso.
- Anda, não queremos que a menina fique encharcada e doente não é? – Levantou-se num gesto rápido, virou-se para mim e fez-me sinal para agarrar a mão dele.
Acto continuo agarrei-me à mão dele e usei-a como ajuda para me levantar, só quando acabei é que me lembrei do quanto pesada sou.
- Descul… - ia começar
- Nem te atrevas! Foi com todo o gosto que te ajudei e que vou sempre ajudar, isto é o mínimo que posso fazer por ti.
- Pronto, pronto, peço desculpa – não consegui evitar e ri-me imenso daquilo.
Ele também se começou a rir, as outras pessoas que estavam a tentar abrigar-se da chuva abrandavam a olhar para nós, dois adolescentes a rir-se à chuva, como se lhes tivessem sido dado o maior presente de sempre.
- Anda, acho que as pessoas pensam que somos loucos. – Disse eu, peguei-lhe na mão e direccionei-o a um banco que eu sabia ter telhado por cima.
- Acho que as pessoas não estão habituadas a ver as outras tão felizes, hoje em dia estão sempre todas demasiado cabisbaixas e embrenhadas nos seus próprios problemas para sorrir.
- Há-des sempre surpreender-me Jude…
- Porquê?
- A tua maneira de falar e observar as coisas que fazem parte da vida surpreende-me.
- Na verdade não é bem o que se passa na vida em geral, mas do que faz parte da minha vida, eu vejo as pessoas assim na instituição onde estou é por isso que sei como as coisas são. Mas tenho imensa dificuldade em tecer comentários sobre a coisa mais especial da minha vida. – e deu-me um grande sorriso.
- Parece-me difícil tu teres dificuldade em alguma coisa, mas explica-me lá o porque dessa dificuldade toda.
- Sabes, porque dizer que és a melhor parte de todos os meus dias e da minha vida não me parece suficiente.

18 março, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #3

Oh meu deus ele não acabou de dizer aquilo. Reage Joana ou vais parecer uma anormal.
E a campainha tocou.
- Yue temos de ir para a sala, tu conheces a mulher ainda nos mata. – Disse o Jude no seu ar mais querido.
- Oh desculpa, sim ahn.. vamos – mas que raio se passa comigo?
- Yue sabes.. logo à tarde vens ao parque comigo?
Ele está mesmo a convidar-me para ir com ele outra vez? – É claro Jude!
- Espero por ti no lugar de sempre minha Yue – E deu-me um beijo na testa e foi para a sala.
Fiquei a olhar para ele sem me aperceber que também tinha de ir, parecia enfeitiçada.
- Bem bateste-lhe mesmo com força!
- O quê? Mary! Chiça pregaste-me cá um susto! Anda lá e deixa-te de coisas, já vamos ouvir da stôra.
E o dia de aulas foi passando, quer dizer eu não conseguia que as horas passassem estava demasiado ansiosa. Às 17h ia mesmo estar novamente com o Jude, não queria acreditar!
Finalmente eram 16:40, arranjei-me o melhor que pude sem dar ideia de algo muito formal, sai de casa e tive de me controlar para não correr até ao parque.
Lá estava ele, é impressão minha ou aquele rapaz era perfeito? Tenho de me despachar e não o fazer esperar.
- Olá Jude. – Devo ter soado mais tímida do que pretendia.
- Yue!
- Banco de sempre?
- Não, hoje não…
-Então?
- Anda, quero mostrar-te uma coisa. – e como se fosse algo extremamente habitual pegou-me na mão.
Ele não deve ter reparado no quanto eu corei e se reparou foi um querido e não o mencionou, mas tudo com o Jude é assim, de outro mundo. Parámos num canto do parque que eu nunca tinha visto, tinha um lago ao centro onde podíamos ver os patos, na verdade o que víamos era as mães patas a levar os filhos para a água pelo que parecia ser a primeira vez.
- Jude porque me trouxeste aqui?
- Queria que conhecesses mais um pouco de mim. – disse ele, parecia pela primeira vez muito tímido.
- Tu sabes que ainda não percebi.
- Pois sei, é estranho como conheço tão bem as tuas expressões, assim como tu conheces as minhas, mas isto é algo que não adivinharias em nenhuma expressão.
Virei-me para ele muito séria, parecia triste, mesmo muito triste.
-Jude não tens de contar, se não quiseres. – Sabia que devia ser uma coisa que lhe custava muito, via-o nos seus olhos.
- Mas o estranho é que eu nunca quis contar a ninguém, excepto a ti Yue, quero partilhar esta parte de mim contigo, por muito triste que seja – ele pegou-me na mão e fez-me sinal para sentar, ficamos ali os dois as ver as mamãs patas a orientar os seus filhos e eu tentei esperar o mais pacientemente que me foi possível até que ele rematou – Sabes eu nunca tive aquilo. – Apontou para os patos, a minha cara deve ter mostrado incompreensão porque ele continuou – nunca tive uma mãe ou um pai, nunca tive ninguém para me proteger e amar, que me levantasse quando caísse, ou que me ensinasse as coisas mais normais da vida, estive sempre sozinho, sempre. Sinto a falta deles, mesmo que nem sequer me lembre deles, eles morreram quando eu tinha apenas dois anos e desde ai que ando em instituições, mas sinto que não pertenço lá, por mais que as senhoras que tomam conta de nós nos amem não consigo parar de achar que estou sozinho.
Eu não queria acreditar que ele estava a partilhar aquela parte dele comigo, mas ainda mais não conseguia acreditar que ele achava que estava completamente sozinho e por isso peguei-lhe na mão com mais força e segurei-a bem, virei-me bem para a tua cara e disse:
- Tu não estás sozinho, eu estou contigo. Nunca mais voltar a estar sozinho ou a sentir isso, prometo-te.
Inventado, continua se quiserem

13 março, 2011

O teu silêncio vale mil palavras #2

“É segunda-feira, vou vê-lo” foi este o meu primeiro pensamento quando acordei, sei que devo ter ficado logo com um sorriso de orelha a orelha porque quando me encontrei com a minha mãe no corredor ela ficou a olhar para mim como se fosse maluca da cabeça, de certeza que estranhou eu não estar exactamente como nas outras segundas, sonolenta, triste e um bocado aborrecida, era um facto que eu antes detestava segundas-feiras, agora só odeio as sextas, sou estranha.
Quando sai de casa pus imediatamente os phones, tinha de acordar, o sonho contigo tinha sido demasiado bonito e eu não queria parecer uma aluada quando chegasse à escola, isso não podia ser, ia levantar demasiadas perguntas, mas não interessava o volume da música nem o tipo desta, eu só te via a ti à frente, nem queria acreditar no que andava a sentir.
Finalmente cheguei à escola e cumprimentei toda a gente, ainda não estavas lá, acho que as pessoas viram qualquer coisa na minha reacção quando não te vi, não me importei, eles também não fizeram intenções de fazer perguntas. E eu que só pensava quando chegarias, acho que estava completamente perdida em pensamentos de ti quando ouvi muito ao longe:
- Vamos ao bar queres vir?
- O quê? – A minha voz parecia a de alguém que tinha sido apanhada a fazer algo que não devia.
- Joana acorda, nós vamos ao bar, queres vir? – era a Mary que estava a falar, acho que devia estar a falar à meia hora e eu sem ouvir, andava a fazê-la bonita andava.
- Não, desculpa Mary, estava distraída.
- Eu percebi isso, ultimamente andas muito distraída.
-Eu sei, desculpa mais uma vez. – acho que devo ter soado triste para ela ter dito o que disse a seguir.
- Não tens de pedir desculpa, apenas quero que saibas, se precisares de alguma coisa, alguma coisa mesmo é só dizer. – e foi-se.
Aquela miúda é a maior, atura todos os meus problemas e nem uma palavra em troca me pede, não admira que seja a minha melhor amiga, faz tudo por mim e eu tudo por ela, mas não lhe podia contar do Jude, ainda não, era muito cedo.
Ainda estava a sorrir como uma tolinha quando senti alguém a meter-me as mãos aos braços, inspirei fundo e acho que dei o grito mais agudo que alguma vez tinha dado e virei-me. Jude… Oh meu deus era ele e eu a gritar como uma louca, só podia imaginar o que estarias a pensar, a tua cara parecia assustada, não admira, tinha a certeza de ter feito mais barulho do que uma montanha russa quando cai.
- Oh Jude desculpa – disse-lhe com o maior ar de culpada.
- Ora não é nada, eu é que não te queria assustar tanto, era suposto ser uma surpresa.
- Lá isso foi e aposto que ias morrendo do coração.
- Nada que não aconteça todas as vezes que olho para a tua cara.
Inventado, continua se quiserem

27 fevereiro, 2011

O teu silêncio vale mil palavras

Eram cinco da manhã, eu não conseguia de pensar em ti, acho que não conseguia parar de pensar mais propriamente nesses teus grandes olhos azuis acinzentados, são únicos. Sabes quando te conheci notei algo de diferente, algo que com o passar do tempo passou a ser muito evidente, eras totalmente e irrevogavelmente antiquado e eu adorava isso. Outra coisa que nunca mais ninguém percebeu é porque não me tratas pelo meu nome, Yue, é assim que me tratas e sempre tratas-te, gostei desde a primeira vez que me trataste assim, um jeito único.
É incrível, a maneira como eu olhei para ti e é como se tivesse acendido algo, conhecia-te desde à muito tempo, sim era isso que sentia.
Algo de familiar nessa tua maneira de ser, combinávamos coisas e simplesmente ficamos sentados a olhar para lugar nenhum, mas tu percebias o que me ia na alma, até ao dia em que simplesmente perguntas-te:
-Sabes o que quer dizer Yue?
-Sim, sei. - Respondi-te com ar inocente.
-E gostas que te chame assim?
-É claro, especialmente quando não estou contigo ainda faz mais sentido, porque não passo de uma grande Lua solitária.
Foi quando passámos a olhar novamente para os olhares vagos das pessoas que iam passando por nós, mas desta vez nós éramos completos.
Inventado
Ps: Acham que de vez em quando continue a fazer textos destes, que faça só dos outros ou que me dedique definitivamente à pesca?